
A cantina Pasquale apresenta mais um atrativo este mês, e ele não está na cozinha. Nem nos vinhos. É que o chef Pasquale, figura tradicional da zona oeste de São Paulo, resolveu homenagear os seus amigos e clientes cartunistas com a exposição de suas obras de 19 de outubro a 19 de dezembro deste ano.
Tudo começou quando o cartunista Lollo passou a usar as folhas de papel Kraft, que acompanham os pratos da cantina, para desenhar. Foram diversas caricaturas do Pasquale, seguidas de muitos outros calhamaços de desenhos, sempre feitos lá mesmo, degustando um aperitivo italiano ou um dos pratos do restaurante: “Toda vez que eu venho, eu desenho e deixo aqui. Desenho de tudo, o Pasquale, pessoas do restaurante etc.”, afirma Lollo. Giuliana Nigro, administradora do restaurante, conta: “O Lollo sempre brincava que nós éramos o único restaurante que não “regulava” papel, um dia meu pai resolveu fazer uma surpresa e expôs todos os desenhos! Era lançamento do livro Super Empty e ele autografou lá mesmo, foi um dia muito especial”.
Ao mudar de endereço, Pasquale resolveu fazer dos cartuns a decoração do novo ambiente. “Eu acho que a caricatura é a cara do Pasquale, é informal, divertida. E eu também sou meio anarquista, não me levo muito à sério, afirma o chef, que pediu ao cartunista que fizesse também o logotipo para a cantina, selando assim a ligação com os artistas.
Laerte, amigo de longa data, brinca com a similaridade entre eles: “Os quadrinhos, o humor cartum, também é pra ser “comido”, dificilmente as pessoas guardam o jornal. Num certo sentido, também estamos servindo refeições diárias, as pessoas voltam ao restaurante assim como voltam ao jornal, lá elas se restauram”.

Outros expositores também já apreciavam a culinária do Pasquale, como o Paulo Caruso: “Eu conheci o Pasquale através do Jaguar, depois eu conheci o Lollo, que vem para a cantina com o seu estojinho e faz uma performance. Acho que o Pasquale pode marcar o seu espaço como um espaço de humor”, avalia ele.
Pasquale conta que os frequentadores da cantina sempre pediam para comprar os cartuns que decoravam o ambiente, mas ele era obrigado a negar, por serem todos presentes do amigo Lollo. Foi assim que, surgiu a idéia de convidar os amigos cartunistas a exporem e venderem suas obras no restaurante. “Eu achei ótimo, achei uma iniciativa muito louca. Já há algum tempo estamos acostumados a expor mas não a vender, encarar mais como impresso do que como “artes plásticas”. E o legal também é que esta exposição se dá fora do ambiente “sacralizado” da arte, é um espaço novo, cultural, que assume o papel de galeria”, comenta Laerte, que expõe “Tiras Variadas”. Sobre os trabalhos selecionados, afirma: “humor é uma forma de ficção, minhas tiras não são necessariamente piadas, são abordagens diferentes, um jeito amoroso de ver as coisas”.
O amigo Angeli, que expõe “Tiras de Jazz”, confessa: “A iniciativa foi uma novidade, eu nunca expus em bares, restaurantes, nunca achei que fosse uma plataforma para mim. Eu também nunca fui de vender meus originais, tenho muito ciúme deles, mas como tenho grande simpatia pelo Pasquale (nós dois nascemos no berço da Casa Verde), veio essa idéia de vender as impressões”. Sobre o seu trabalho, Angeli afirmou: “Para construir uma piada eu tenho uma técnica minha, que nem eu mesmo sei decifrar. Eu utilizo muito o cotidiana. Tudo vem da rua, das pessoas, das relações humanas. Eu me considero um anarquista, acho que o chargista que toma partido político, acaba perdendo a sua força, a contundência do seu trabalho”. Sobre a escolha de desenhar tiras de jazz, conta: “Eu gosto muito de música, sempre gostei, e eu geralmente desenho o cara que eu estou escutando no momento. Eu pesquiso a vida do músico e gosto muito de desenhar os músicos sem a piada, sem o “começo, meio e fim”.
Chico Caruso optou por expor “Caricaturas”, Nani por “Gravuras Variadas” e Paulo Caruso, “Alguns Cartuns”. “Eu geralmente não vendo, faço algumas cópias, fiz várias exposições, mas ainda não entrei nesse mercado. O meu trabalho, que é um comentário do dia-a-dia da política, é muito datado, não tem um valor de mercado de arte, assim como os do meu irmão. Já os outros cartunistas fizeram desenhos abertos, que não são alusivos a nenhum fato político, então independem do conhecimento das pessoas”, comentou Paulo Caruso, que falou ainda sobre a relação entre a política e o seu trabalho: “O nosso aparecimento profissional foi debaixo da ditadura, as gerações subsequentes não tem esse viés politicamente correto. A gente é artista de uma arte aplicada, a nossa relação é com a imprensa”.
Bem menos “politicamente correto”, Lollo nos contou que sua idéia de expor o “Tarô do Pasquale”, foi justamente para poder brincar com a imagem do chef das mais diversas formas possíveis: “queria fazer algo sobre o restaurante, mas não o cartum que normalmente faço aqui. Como já tinha feito uma carta de tarô pro Pasquale, pensei que um baralho inteiro seria um jeito engraçado de colocá-lo em vários desenhos inusitados, como caindo de uma torre ou mesmo pelado”. Sobre o aspecto comercial da exposição, comentou: “Para falar a verdade, eu raramente vendo meu trabalho, eu gostaria mesmo é de comprar originais dos outros cartunistas, dos quais eu sou fã”.
Pasquale ficou feliz com o resultado, que foi fruto de muita insistência: “Eu pensei nos meus amigos cartunistas porque eles têm muitas obras e não costumam vender. Então eu insisti com eles. O Jaguar também. Ele ficou doente e não veio, mas foi o que mais incentivou. Depois que decidimos, outros cartunistas queriam participar e não havia mais espaço. Já penso em fazer mais eventos como este”. A exposição acontece no salão superior da cantina Pasquale, que fica na rua Amália de Noronha, 167, Pinheiros.

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